"Eu Sei Que Preciso Mudar. Então Por Que Não Consigo?” O Que a DBT Explica Sobre as Etapas da Mudança
Você já se pegou pensando: “Eu sei exatamente o que preciso fazer para melhorar, mas simplesmente não consigo dar o primeiro passo?”. Talvez seja parar de se autossabotar, controlar melhor a impulsividade ou lidar de forma mais saudável com as emoções intensas. A consciência está lá, a vontade parece genuína, mas a ação não vem. A ciência da psicologia, especialmente a Terapia Comportamental Dialética (DBT), oferece uma explicação poderosa para esse impasse: a mudança não é um ato único, mas um processo que acontece em etapas. Compreender em qual dessas etapas você se encontra pode ser a chave para finalmente desbloquear o progresso.
Por Que a Mudança é Tão Difícil? A Perspectiva da Ciência
A dificuldade em transformar a intenção em ação é um fenômeno humano universal, e não um defeito pessoal. A psicologia estuda esse processo há décadas, e um dos modelos mais respeitados para entendê-lo é o Modelo Transteórico da Mudança, desenvolvido pelos pesquisadores Prochaska e DiClemente. Este modelo não vê a mudança como um interruptor que se liga, mas como uma espiral de estágios. A DBT, uma terapia inicialmente criada para o Transtorno de Personalidade Borderline e hoje utilizada para uma variedade de problemas de regulação emocional, incorpora essa visão, ajudando a entender por que tantas pessoas ficam presas na armadilha do “eu sei, mas não consigo”. Uma pesquisa que avaliou a aplicabilidade deste modelo de estágios em pacientes submetidos à DBT concluiu que ele se mostrou aplicável, sugerindo que entender em qual estágio a pessoa se encontra pode ajudar a compreender melhor o processo de mudança .
O modelo identifica seis estágios principais pelos quais as pessoas passam, e a DBT, com sua abordagem prática e focada em habilidades, oferece ferramentas específicas para cada um deles. A seguir, vamos explorar cada um desses estágios e entender como eles se aplicam à sua jornada pessoal.
Estágio 1: Pré-Contemplação — “Eu Não Tenho Um Problema”
Nesta fase inicial, a pessoa não tem consciência ou não reconhece a necessidade de mudar. Pode ser que ela não veja seu comportamento como problemático ou que minimize suas consequências. Para os familiares ou amigos, a necessidade de mudança é óbvia, mas para a pessoa, não há nada a ser feito. As defesas estão altas, e qualquer sugestão de mudança é frequentemente recebida com resistência ou justificativas. É um momento de negação que protege a pessoa do desconforto de encarar uma verdade difícil.
Estágio 2: Contemplação — “Eu Sei Que Preciso Mudar, Mas...”
Este é o estágio que dá título ao nosso artigo. A pessoa reconhece que tem um problema e começa a pensar seriamente em resolvê-lo. No entanto, esse reconhecimento não se traduz em ação. É a fase do “mas”: “Mas não agora”, “Mas é muito difícil”, “Mas não sei por onde começar”. A pessoa está numa encruzilhada, pesando os prós e os contras da mudança. Estudos mostram que a ambivalência é uma marca registrada deste estágio. A pessoa está dividida entre o desejo de mudar e o medo de perder algo familiar, mesmo que doloroso. É um lugar comum para se ficar preso por muito tempo, gerando frustração. A pesquisa indica que é exatamente neste ponto que a dificuldade de antecipar o impacto emocional de uma decisão ajuda a explicar por que as pessoas, mesmo com crenças racionais a favor da mudança, não agem de acordo .
Estágio 3: Preparação — “Estou Me Preparando Para Agir”
Aqui, a intenção se torna mais forte. A pessoa não só reconhece o problema, mas começa a tomar pequenos passos em direção à mudança. Pode pesquisar sobre o assunto, marcar uma consulta com um psicólogo, ou fazer um plano simples. A ação ainda não é consistente, mas a preparação está em andamento. A pessoa já não está mais apenas pensando; ela está se equipando para a jornada. Esse movimento, por menor que pareça, é um sinal crucial de progresso.
Estágio 4: Ação — “Estou Mudando”
Este é o estágio da mudança visível. A pessoa modifica ativamente seu comportamento, seu ambiente ou suas experiências para superar o problema. É o momento de colocar em prática as habilidades aprendidas, sejam elas de regulação emocional, tolerância ao sofrimento ou eficácia interpessoal. A DBT brilha neste estágio. A terapia ensina habilidades específicas para que a pessoa possa lidar com as situações desafiadoras sem recorrer a velhos padrões. A pesquisa Soler et al. mostrou que, após três meses de tratamento com grupo de habilidades em DBT, as pontuações no subteste de "ação" (um dos componentes do estágio de mudança) e na "ação comprometida" foram significativamente maiores . Na prática, isso demonstra que a DBT ajuda as pessoas a saírem da contemplação e entrarem efetivamente na ação.
Estágio 5: Manutenção — “Estou Sustentando a Mudança”
A ação inicial é importante, mas sustentar a mudança a longo prazo é o verdadeiro desafio. No estágio de manutenção, o foco é prevenir recaídas e consolidar os ganhos obtidos. A pessoa já modificou seu comportamento por um período considerável (geralmente mais de seis meses) e trabalha ativamente para não retornar aos velhos padrões. A DBT continua sendo uma aliada valiosa aqui, com estratégias para lidar com gatilhos e manter a motivação.
Estágio 6: Término — “A Mudança Faz Parte de Quem Eu Sou”
Este é o estágio final, onde a pessoa já não sente mais a tentação de retornar ao comportamento antigo. A nova forma de ser se tornou parte de sua identidade. A confiança é plena, e a pessoa pode enfrentar novos desafios sem o medo de recair no padrão anterior. A mudança foi completamente integrada.
O Que a Ciência AINDA NÃO SABE Sobre Esse Processo
Embora o modelo de estágios seja extremamente útil, é importante ser crítico quanto ao que a ciência ainda não compreende completamente. Uma meta-análise que revisou 87 estudos sobre os estágios de mudança concluiu que há evidências escassas de que as pessoas se movem de forma sequencial por esses estágios de maneira linear . Na prática, isso significa que a mudança não é uma escada que se sobe degrau por degrau, mas sim uma jornada com avanços e recuos. É muito comum, por exemplo, que uma pessoa que já estava em "ação" volte a um estado de "contemplação" após um revés, o que não significa que ela falhou, mas que o processo não é linear.
Outra limitação importante é que a maioria dos estudos sobre o tema é realizada com pessoas de países ocidentais, com uma certa homogeneidade cultural. Não se pode afirmar com certeza que esse modelo se aplica da mesma forma a todas as culturas ou contextos socioeconômicos. Além disso, muitos estudos ainda carecem de um acompanhamento (follow-up) mais longo, de 2 anos ou mais, para entender se as mudanças são de fato duradouras.
Como Isso se Traduz no Dia a Dia?
Compreender esses estágios não é um exercício acadêmico. É uma ferramenta poderosa para a autocompaixão e para orientar suas ações. Se você se identifica com o estágio de contemplação ("Eu sei, mas não consigo"), em vez de se criticar, você pode se perguntar: "O que me impede de passar para a ação?". Talvez seja o medo de falhar, a falta de habilidades específicas ou o receio de perder algo. A partir dessa compreensão, você pode agir.
Aqui estão algumas perguntas práticas que você pode fazer a si mesmo ou ao seu terapeuta para identificar seu estágio e o que fazer a seguir:
- Eu reconheço que tenho um problema que precisa ser mudado? Se a resposta for não, você está na pré-contemplação. Pergunte-se: "O que as pessoas ao meu redor veem que eu não estou vendo?".
- Se eu reconheço o problema, o que me impede de agir? Se você tem mil razões para não começar, está na contemplação. Tente listar os prós e os contras da mudança e da manutenção do comportamento. A balança está realmente pendendo para a mudança?
- Estou tomando pequenas ações, mesmo que inconsistentes, em direção à mudança? Se sim, você está na preparação. Que tal dar um passo concreto e pequeno hoje, como pesquisar sobre o tema ou agendar uma conversa com um profissional? A DBT sugere o uso da análise de soluções, um processo onde se faz um brainstorming para gerar o maior número possível de soluções, que são então avaliadas para escolher a mais eficaz .
- Já comecei a mudar, mas tenho medo de voltar atrás? Você está na ação ou manutenção. O foco aqui é fortalecer suas novas habilidades e ter um plano para lidar com as recaídas. A DBT chama isso de "solução de problemas", onde se identifica o que desencadeia o comportamento problemático e se busca ativamente soluções alternativas.
Um sinal de alerta importante: se você sente que a tentativa de mudança está gerando um sofrimento insuportável ou que você não consegue dar o primeiro passo sozinho, essa é a hora de procurar ajuda profissional. A psicoterapia, especialmente a DBT, é excelente para ajudar a navegar por esses estágios de forma estruturada e acolhedora. Ela oferece as ferramentas para você não apenas entender por que está preso, mas também para desenvolver a habilidade de se libertar.
A mudança é um processo, não um evento. Permita-se estar onde você está, e dê o próximo passo, não o maior, mas o possível.
Perguntas Frequentes (FAQ)
É normal ficar preso no estágio de contemplação por muito tempo? Sim, é extremamente comum. A ambivalência é uma parte natural do processo de mudança. A pessoa pode passar meses ou até anos pesando os prós e contras. O importante é não se julgar por isso e, se desejar, buscar ferramentas para sair desse lugar, como a terapia.
A DBT é útil apenas para o Transtorno de Personalidade Borderline? Originalmente, sim. No entanto, hoje a DBT é amplamente utilizada para diversas condições que envolvem desregulação emocional, como depressão, ansiedade, transtornos alimentares, e para qualquer pessoa que deseje melhorar sua capacidade de lidar com emoções intensas e relacionamentos. Suas habilidades são universais.
Eu já tentei mudar várias vezes e sempre volto atrás. Isso significa que sou um fracasso? De forma alguma. A ciência mostra que a mudança é um processo espiral. As recaídas são parte do aprendizado. Cada tentativa fornece informações valiosas sobre o que funciona e o que não funciona. O que importa é continuar se levantando e tentando novamente, mas com uma estratégia melhor.
Existe uma ordem certa para passar pelos estágios? Pesquisas indicam que o movimento não é estritamente linear. É comum saltar entre estágios. Por exemplo, uma pessoa pode estar na ação, sofrer uma recaída e voltar para a contemplação. O que importa é a direção geral do movimento em direção à mudança sustentável.
Como a DBT me ajuda a sair da contemplação e ir para a ação? A DBT foca em habilidades práticas. Ela te ensina a tolerar o mal-estar sem recorrer a comportamentos problemáticos, a regular emoções intensas, a melhorar a comunicação em relacionamentos e a estar mais presente no momento. Ao adquirir essas habilidades, a ação se torna possível, pois você tem ferramentas para enfrentar os desafios que antes te paralisavam. A análise em cadeia de comportamentos usada na DBT ajuda a identificar exatamente em que ponto a pessoa fica presa, para que se possa encontrar uma solução alternativa.
Quanto tempo leva para passar por todos os estágios? Não há um prazo definido. Varia muito de pessoa para pessoa, da complexidade do problema e do apoio disponível. A manutenção, por exemplo, pode levar mais de seis meses para ser consolidada. A jornada de cada um é única.
Conclusão
Entender que a mudança é um processo composto por etapas é um ato de autocompaixão e um passo fundamental para alcançar seus objetivos. Se você se sente preso no ciclo do "eu sei, mas não consigo", saiba que isso não é uma falha pessoal, mas um sinal claro de que você está em um estágio específico da jornada. A Terapia Comportamental Dialética oferece um caminho claro e baseado em evidências para navegar por esses estágios, fornecendo as habilidades necessárias para transformar a intenção em ação e a ação em uma vida que vale a pena ser vivida. O primeiro passo é apenas reconhecer onde você está. O segundo, pedir ajuda se precisar. E lembre-se: a jornada é mais importante do que a velocidade.
Conteúdo produzido com finalidade educativa pela Aline Gomes Psicóloga CRP: 06/190242.









