“Você Está Me Abandonando?” Como a DBT Ajuda com o Medo do Abandono
O medo do abandono é uma das experiências mais dolorosas e paralisantes que alguém pode viver. Ele não se manifesta apenas como uma preocupação passageira. Pode se transformar em um pensamento constante, em uma sensação de que a qualquer momento as pessoas importantes vão sumir, e isso gera angústia, comportamentos de controle, ciúmes intensos e até mesmo o afastamento daquelas mesmas pessoas que se deseja manter por perto. Se você já sentiu que suas relações são um campo minado e que qualquer sinal de distância é uma confirmação de que será deixado para trás, saiba que essa dor tem nome, tem explicação e, o mais importante, tem tratamento. A Terapia Comportamental Dialética, conhecida como DBT, é uma das abordagens mais eficazes para lidar com esse sofrimento, e a ciência tem mostrado isso de forma consistente.
Por que isso importa para você
O medo do abandono não é um defeito de caráter ou um sinal de fraqueza. Ele está profundamente enraizado em como o cérebro processa ameaças e em como aprendemos, muitas vezes desde cedo, a lidar com relações importantes. Quando esse medo é intenso, ele pode levar a um ciclo vicioso: a pessoa tem medo de ser abandonada, age de forma impulsiva ou desconfiada para evitar a perda, e esse comportamento acaba pressionando o outro, que pode se afastar, confirmando o medo inicial. Compreender que existe um caminho científico para interromper esse ciclo é o primeiro passo para recuperar o controle e construir relações mais seguras e saudáveis.
O que a ciência mais confiável diz sobre isso
A DBT foi desenvolvida originalmente pela psicóloga Marsha Linehan para o tratamento do Transtorno de Personalidade Borderline, um quadro em que o medo do abandono é um sintoma central . A abordagem é baseada em princípios cognitivo-comportamentais e é, atualmente, uma das únicas terapias com evidência empírica robusta para esse tipo de sofrimento . A eficácia da DBT não se limita ao borderline, sendo também útil em outros transtornos, mas é no manejo da instabilidade emocional e relacional que ela se destaca
Estudos de alta qualidade, como meta-análises publicadas em periódicos de grande impacto, mostram que psicoterapias especializadas, como a DBT, são eficazes na redução da gravidade geral do sofrimento psíquico associado a esses padrões. Uma meta-análise que reuniu dados de 20 estudos e mais de 1.300 participantes encontrou um efeito de tamanho médio, com um intervalo de confiança de 95% indicando que o efeito é confiável . Traduzindo para a prática: em um grupo de 100 pessoas com dificuldades semelhantes, aquelas que passaram por um tratamento especializado como a DBT apresentaram melhorias significativamente maiores do que aquelas que receberam apenas o tratamento habitual. O efeito é comparável ao benefício de fazer uma atividade física regularmente em comparação a não fazer nenhuma . Isso significa que a terapia não é apenas um "apoio" para o dia a dia; ela promove mudanças mensuráveis e clinicamente relevantes.
Especificamente sobre o medo do abandono, um estudo controlado e randomizado, um dos desenhos de pesquisa mais rigorosos, testou uma psicoterapia manualizada chamada "psicoterapia do abandono". Essa terapia incorporava princípios da DBT e de outras abordagens, focando em relacionamentos amorosos e nas dificuldades que surgem nesse contexto. O estudo, com 170 participantes, demonstrou que a terapia focada no abandono foi superior ao tratamento usual para reduzir a ideação suicida e melhorar o quadro geral dos pacientes, mostrando que intervir diretamente nesse medo traz benefícios concretos . É importante saber que esse estudo foi feito com uma população predominantemente feminina (84,1%) e com diagnóstico de depressão maior associado, o que pode influenciar os resultados para outros perfis .
A DBT estrutura-se em quatro componentes principais: treino de habilidades em grupo, psicoterapia individual, consultoria telefônica e equipe de consultoria para os terapeutas . As habilidades ensinadas são a espinha dorsal do tratamento:
- Mindfulness (Atenção Plena): Ajuda a pessoa a observar seus sentimentos de medo sem ser dominada por eles, criando um espaço entre o gatilho e a resposta impulsiva.
- Tolerância ao Sofrimento: Ensina estratégias para suportar crises emocionais intensas sem recorrer a comportamentos autodestrutivos ou que prejudicam os relacionamentos.
- Regulação Emocional: Permite identificar, nomear e modificar emoções, diminuindo a intensidade e a frequência do medo do abandono.
- Eficácia Interpessoal: Fornece ferramentas para pedir o que se precisa, dizer "não" e lidar com conflitos de forma assertiva, construindo relações mais estáveis
E como isso se traduz no dia a dia?
Na prática clínica, a DBT traduz a ciência em ações concretas. Se você sente esse medo intensamente, alguns sinais podem indicar que é hora de buscar ajuda profissional:
- Você faz constantes "testes" com as pessoas para ver se elas realmente gostam de você.
- Interpreta mensagens de texto ou atrasos como sinais de que a pessoa vai te deixar.
- Termina relacionamentos antes que a outra pessoa possa fazê-lo, para evitar a dor da rejeição.
- Sente uma ansiedade paralisante sempre que uma pessoa querida está longe.
- Tem dificuldade em confiar que o afeto das pessoas é genuíno e estável.
A DBT oferece ferramentas para cada um desses momentos. Por exemplo, quando a ansiedade de ser abandonado surge, a habilidade de "tolerância ao sofrimento" ensina a "distrair-se" com atividades agradáveis ou a "melhorar o momento" com técnicas de relaxamento, até que a onda emocional passe. A "regulação emocional" ajuda a questionar o pensamento automático de "ela vai me abandonar", substituindo-o por uma avaliação mais realista da situação. E a "eficácia interpessoal" dá o roteiro para expressar o medo e a necessidade de segurança sem acusar ou pressionar a outra pessoa, aumentando as chances de uma resposta acolhedora.
Diante disso, algumas perguntas que você pode fazer ao seu terapeuta ou médico são:
- "A DBT é a abordagem mais indicada para o meu caso ou existem outras opções baseadas em evidências?"
- "Como posso lidar com a ansiedade intensa quando sinto que a pessoa vai me abandonar, usando as habilidades da DBT?"
- "É normal ter medo de começar a terapia e de me sentir pior antes de melhorar?"
Perguntas Frequentes
A DBT funciona apenas para pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline? Embora tenha sido desenvolvida para o borderline, a DBT tem se mostrado eficaz para outras condições que envolvem desregulação emocional intensa, como transtornos alimentares, uso de substâncias e depressão. As habilidades ensinadas são universais e podem beneficiar qualquer pessoa que sofra com emoções muito intensas, incluindo o medo do abandono.
A DBT é melhor do que a medicação para o medo do abandono? A DBT não é um substituto para a medicação, mas uma abordagem complementar e, em muitos casos, a principal linha de tratamento para esses padrões de sofrimento. A medicação pode ajudar a aliviar sintomas como ansiedade e depressão, mas a DBT ensina habilidades para mudar a relação com esses sintomas e com os relacionamentos ao longo da vida. A decisão sobre o uso de medicamentos deve ser sempre individualizada e disutida com um psiquiatra.
É normal ter medo de que meu terapeuta também me abandone? Sim, e isso é um tema central no tratamento. O medo do abandono pode se transferir para a relação terapêutica. Um bom terapeuta treinado em DBT sabe disso e trabalhará a relação de forma transparente, usando o vínculo como uma ferramenta para curar essa ferida. O término da terapia também é planejado e trabalhado para que seja uma experiência reparadora, e não mais um trauma.
Quanto tempo dura o tratamento com DBT? A DBT tradicional é um tratamento de longo prazo, geralmente com duração de um ano, incluindo sessões individuais semanais e grupo de habilidades. No entanto, existem adaptações e versões mais breves. O tempo necessário depende da gravidade dos sintomas e dos objetivos de cada pessoa. O mais importante é que a terapia não tem um prazo fixo; ela avança no ritmo do paciente.
Como a DBT lida com a sensação de vazio e de que ninguém me ama? Esses sentimentos estão ligados à desregulação emocional e a padrões de pensamento negativos sobre si mesmo. A DBT trabalha isso através do módulo de Regulação Emocional, que ajuda a pessoa a identificar, validar e modificar emoções, e da construção de uma "vida que vale a pena ser vivida", que envolve encontrar prazer e significado em atividades diárias, diminuindo a dependência emocional exclusiva dos outros para sentir-se bem.
O que fazer se eu começar a DBT e quiser desistir? Esse é um dos momentos mais importantes do tratamento. A vontade de desistir é comum e muitas vezes é uma resposta ao medo e à dor que a terapia pode trazer à tona. O ideal é conversar com seu terapeuta sobre esse impulso. Ele irá ajudá-lo a usar as habilidades de tolerância ao sofrimento para lidar com esse desconforto e a entender o que está por trás do desejo de abandonar a terapia, transformando essa crise em mais uma oportunidade de aprendizado e crescimento.
Conclusão
O medo do abandono não precisa ser uma sentença para relações infelizes e para uma vida de sofrimento. A ciência psicológica, por meio de abordagens como a Terapia Comportamental Dialética, oferece um caminho claro e baseado em evidências para compreender e superar essa dor. A DBT não apenas ensina a lidar com as crises, mas constrói uma nova forma de se relacionar consigo mesmo e com os outros, baseada na segurança, na confiança e na capacidade de regular as próprias emoções. Como mostram os estudos, o efeito é real e significativo, embora não seja perfeito nem universal. O mais importante é saber que a mudança é possível e que buscar ajuda profissional é o ato mais corajoso e transformador que alguém pode fazer por si mesmo. Lembre-se: você pode aprender a se sentir seguro nas suas relações e, principalmente, a não ter medo de ficar sozinho, pois a sua presença já é suficiente.
Conteúdo produzido com finalidade educativa pela Aline Gomes Psicóloga CRP: 06/190242.









