Quase desistindo? Valores de vida podem te levar mais longe
Existe um momento em que a exaustão emocional parece maior do que qualquer força que você possa ter. Talvez você já tenha sentido isso. A vontade de desistir pode ser um sinal de que você está cansado, e o cansaço emocional é real.
A psicologia baseada em evidências tem se dedicado a entender o que sustenta uma pessoa quando ela pensa em desistir. E a resposta, segundo as pesquisas mais robustas, pode estar menos em "aguentar firme" e mais em construir uma vida alinhada com aquilo que realmente importa para você.
O Que a Ciência Mais Confiável Diz Sobre Isso
A Terapia Comportamental Dialética (DBT) foi desenvolvida pela psicóloga Marsha Linehan com um objetivo que é, ao mesmo tempo, simples e profundo: ajudar pessoas a construir "uma vida que vale a pena ser vivida". Essa não é uma frase motivacional solta. É o princípio que organiza toda a estrutura terapêutica da DBT, e é por isso que a abordagem se tornou uma das mais estudadas da psicologia.
Mas qual é a força dessa abordagem? Uma meta-análise de rede publicada na *Psychological Medicine* em 2023 reuniu 43 estudos com um total de 3.273 participantes e comparou diferentes psicoterapias para o transtorno de personalidade borderline. O resultado foi claro: a DBT foi o tratamento com a evidência mais sólida de eficácia, com efeitos estáveis e significativos em comparação ao tratamento usual. Para traduzir: em um grupo de 100 pessoas com o mesmo diagnóstico, uma parcela significativamente maior se beneficiaria com a DBT do que com o tratamento padrão.
A evidência mais robusta sobre a DBT vem de sua capacidade de reduzir comportamentos autodestrutivos e ideação suicida. Uma meta-análise publicada no *Journal of Clinical Psychology* em 2026 analisou 83 estudos e encontrou que a DBT foi associada a uma redução grande em violência autodirigida e reduções médias em uso de serviços de crise e ideação suicida. Em estudos controlados, a DBT demonstrou efeito significativo para violência autodirigida. Na prática, isso significa uma redução substancial no risco de comportamentos graves em pessoas que recebem DBT.
Outra meta-análise recente, publicada em 2026, analisou sete ensaios clínicos e encontrou que a DBT produziu uma redução moderada e estatisticamente significativa nos sintomas de depressão, com um tamanho de efeito de SMD = -0,59 (IC 95% -1,02 a -0,16). Para colocar em termos práticos: em um grupo de 100 pessoas com sintomas depressivos, aproximadamente 22 a 30 pessoas a mais apresentariam melhora significativa com a DBT em comparação a um grupo sem intervenção. A DBT também mostrou redução moderada na expressão de raiva, com SMD = -0,738.
O Papel dos Valores na Prática
A construção de valores de vida não é um exercício abstrato. Na DBT, ela é uma habilidade concreta que envolve identificar o que dá sentido à sua existência e, a partir disso, tomar decisões e agir de forma coerente com esses princípios, mesmo quando as emoções são intensas. Pesquisas qualitativas com terapeutas de DBT mostram que a integração precoce dos objetivos e valores dos clientes é fundamental para motivar mudanças por razões maiores do que apenas a redução de sintomas. Os terapeutas descrevem a recuperação como uma transição do sofrimento para uma vida de liberdade normal, na qual os clientes adquirem habilidades que permitem a criação de um modo de vida estável e viável.
Mas o que a ciência diz sobre a relação entre viver de acordo com valores e sofrimento psicológico? Uma meta-análise publicada no *Journal of Contextual Behavioral Science* em 2023 revisou 72 estudos com mais de 14 mil participantes e mostrou que "viver de acordo com valores pessoais" tem correlação negativa com depressão (r = -0,42, IC 95% [-0,45; -0,39], p < .001) e ansiedade (r = -0,26, IC 95% [-0,29; -0,22], p < .001). Em termos práticos: quanto mais uma pessoa age em coerência com o que realmente importa para ela, menores tendem a ser os níveis de sofrimento psicológico. A correlação de -0,42 é considerada moderada a forte na psicologia, um efeito robusto que aparece de forma consistente em diferentes populações.
É importante saber que esses estudos foram feitos majoritariamente com pessoas de países ocidentais, então os resultados podem não ser os mesmos para outras culturas. Além disso, a maioria dos estudos incluídos nessa meta-análise foi realizada com estudantes universitários ou pessoas com dor crônica, o que limita a generalização para outros grupos.
O Que a Ciência Ainda Não Sabe
Apesar dos resultados promissores, é importante ser honesto sobre as limitações. Os pesquisadores ainda não sabem se os benefícios da DBT duram mais de dois anos, porque a maioria dos estudos acompanha os participantes por apenas 6 a 12 meses. A meta-análise que analisou 83 estudos sobre DBT e suicidabilidade aponta que os resultados devem ser interpretados com cautela devido à heterogeneidade entre os estudos e evidências de viés de publicação.
Além disso, nem todas as pessoas respondem da mesma forma. A ciência mostra que cerca de 1 em cada 3 pessoas pode não ter o benefício esperado, o que reforça a importância de tratamentos individualizados. Também é importante notar que a maioria dos estudos sobre DBT foi realizada com pessoas diagnosticadas com transtorno de personalidade borderline, o que significa que os resultados podem não ser generalizáveis para outras condições de saúde mental.
E Como Isso se Traduz no Dia a Dia?
Se você está passando por um momento em que pensa em desistir, a ciência sugere que olhar para seus valores pode ser um caminho. Não se trata de ignorar a dor, mas de encontrar um motivo que seja maior do que ela. Pergunte a si mesmo: o que faz minha vida valer a pena, mesmo nos dias difíceis? Quais são as pessoas, causas ou projetos que dão sentido à minha existência?
Essas perguntas podem ser um ponto de partida para uma conversa com um psicólogo. A DBT ensina que a construção de uma vida com significado é uma habilidade que pode ser aprendida e praticada. Não é sobre nunca sentir vontade de desistir, mas sobre ter algo que te puxe de volta quando essa vontade aparece.
Se você está em sofrimento intenso, procure ajuda profissional. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. Falar com alguém pode ser o primeiro passo.
Perguntas Frequentes
A DBT é apenas para pessoas com transtorno de personalidade borderline? Não. Embora tenha sido desenvolvida inicialmente para esse público, a DBT tem sido estudada e adaptada para diversas condições, como transtornos alimentares, uso de substâncias, depressão e ansiedade. Uma meta-análise de 2026 mostrou que intervenções baseadas em DBT foram associadas a melhoras significativas na regulação emocional em pessoas com transtorno do espectro autista, com SMD = -0,89.
Construir valores de vida é o mesmo que fazer uma lista de metas? Não exatamente. Valores são direções que guiam sua vida, como "ser uma pessoa presente para minha família" ou "contribuir para minha comunidade". Metas são objetivos específicos que você pode alcançar. Valores são o "porquê" por trás das metas.
Quanto tempo leva para ver resultados com a DBT? Os estudos geralmente avaliam resultados após 6 meses a 1 ano de tratamento. A meta-análise sobre depressão e raiva incluiu ensaios que variaram de 8 semanas a 12 meses de duração. Cada pessoa tem um ritmo diferente, e os benefícios tendem a aparecer gradualmente.
A DBT substitui a medicação? Não. A DBT é uma forma de psicoterapia e não substitui a avaliação e o acompanhamento médico. Qualquer decisão sobre medicação deve ser discutida com um psiquiatra.
E se eu não me identificar com os valores que a terapia propõe? Os valores são seus. A terapia não impõe valores, ela ajuda você a identificar o que já é importante para você. O terapeuta é um facilitador nesse processo de autoconhecimento.
A DBT funciona para qualquer pessoa? A ciência mostra que a DBT tem bons resultados para muitas pessoas, mas não para todas. Cerca de 1 em cada 3 pessoas pode não ter o benefício esperado. É importante que o tratamento seja individualizado e que você converse abertamente com seu terapeuta sobre o que está funcionando ou não.
Conclusão
Quando você está quase desistindo, o que te mantém de pé? A resposta pode estar menos em uma força sobre-humana e mais na construção de uma vida que faça sentido para você. A ciência da DBT mostra que valores pessoais não são um luxo, são uma ferramenta de sobrevivência. Eles nos conectam a algo maior do que a dor do momento. Se você está nesse ponto, saiba que a busca por uma vida com significado é um caminho possível, e que a psicologia tem evidências para te ajudar a trilhá-lo.
Conteúdo produzido com finalidade educativa pela Aline Gomes Psicóloga CRP: 06/190242.









