Não precisamos esperar Setembro para falar sobre suicídio: o que a ciência diz sobre prevenção e cuidados
O assunto por medo de "dar ideias" ou por não saberem como abordar alguém que pode estar sofrendo. Mas a ciência mostra que o oposto é verdadeiro: falar de forma aberta, cuidadosa e baseada em evidências é uma das ferramentas mais poderosas de prevenção.
A campanha Setembro Amarelo trouxe visibilidade ao tema, mas o sofrimento psíquico não segue calendário. Pensamentos suicidas podem surgir em qualquer época do ano, e é por isso que o diálogo sobre saúde mental e prevenção precisa ser constante.
Por que falar sobre suicídio ao longo de todo o ano é essencial
O suicídio é um fenômeno complexo e multifacetado, que pode afetar pessoas de diferentes origens, idades, classes sociais e culturas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, são registrados mais de 700 mil suicídios por ano em todo o mundo, e estima-se que os números reais sejam ainda maiores devido à subnotificação . No Brasil, os registros se aproximam de 14 mil casos anuais, o que significa cerca de 38 pessoas por dia .
Entre 2016 e 2021, houve um aumento de 49,3% nas taxas de mortalidade por suicídio entre adolescentes de 15 a 19 anos no país, e de 45% entre jovens de 10 a 14 anos . Esses números não são apenas estatísticas. São vidas interrompidas e famílias que carregam uma dor profunda.
É importante saber que esses dados mostram tendências gerais, mas não contam a história de cada pessoa. O comportamento suicida não é uma escolha ou um sinal de fraqueza. É, na maioria das vezes, a expressão de um sofrimento emocional intenso que torna os pensamentos e sentimentos muito restritivos, dificultando a percepção de outras saídas . A ciência aponta que praticamente 100% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos mentais, muitos deles não diagnosticados ou tratados de forma inadequada .
A boa notícia é que o suicídio pode ser prevenido. E a prevenção começa com a informação correta, a redução do estigma e a disponibilidade de tratamentos baseados em evidências.
O que a ciência diz sobre o tratamento do comportamento suicida
Quando falamos em prevenção do suicídio, não estamos falando apenas de campanhas de conscientização, embora elas sejam importantes. Estamos falando de oferecer às pessoas em sofrimento acesso a tratamentos que realmente funcionam. E um dos tratamentos com maior respaldo científico para comportamentos suicidas e autolesivos é a Terapia Comportamental Dialética.
A DBT foi desenvolvida pela psicóloga Marsha Linehan originalmente para o tratamento de pessoas com transtorno de personalidade borderline, caracterizado por intensa desregulação emocional e alto risco de suicídio . Ao longo dos anos, a abordagem tem sido ampliada para outras condições que envolvem dificuldade em lidar com emoções intensas, como depressão maior, transtorno de estresse pós-traumático e transtornos alimentares .
Uma meta-análise recente que reuniu 43 estudos com mais de 3.200 participantes mostrou que abordagens como a DBT demonstraram eficácia significativamente maior no tratamento de pessoas com transtorno de personalidade borderline quando comparadas ao tratamento usual . Outros estudos também indicam que a DBT é eficaz na redução de comportamentos suicidas e autolesivos, além de diminuir a frequência de idas a serviços de emergência psiquiátrica .
Na prática, isso significa que, para muitas pessoas com histórico de ideação ou comportamento suicida, a DBT oferece ferramentas concretas para lidar com o sofrimento de forma menos destrutiva. A abordagem combina estratégias de mudança, típicas da terapia cognitivo-comportamental, com práticas de aceitação, como mindfulness e tolerância à angústia .
É importante saber que os efeitos observados nos estudos, embora consistentes, são de magnitude moderada. Isso quer dizer que a DBT não funciona para todas as pessoas da mesma forma. Nem todas respondem igualmente ao tratamento, e os benefícios podem não se manter a longo prazo se não houver continuidade do cuidado .
Os pesquisadores ainda não sabem ao certo se o efeito dura mais de dois anos, porque a maioria dos estudos acompanha os participantes por períodos mais curtos.
Como a DBT atua na prevenção do suicídio
A Terapia Comportamental Dialética parte de uma compreensão específica do sofrimento humano: a desregulação emocional. Muitas pessoas que pensam em suicídio ou se automutilam não estão "loucas" nem "fracas". Elas estão, frequentemente, lidando com uma combinação de vulnerabilidade biológica para sentir emoções com grande intensidade e um ambiente que não validou ou ensinou formas saudáveis de lidar com essas emoções .
A DBT atua em quatro áreas principais de habilidades:
Mindfulness ou atenção plena. Ajuda a pessoa a desenvolver maior consciência dos próprios pensamentos e sentimentos sem se deixar dominar por eles. Isso reduz a impulsividade, que é um fator importante no comportamento suicida.
Tolerância à angústia. Ensina estratégias para suportar momentos de sofrimento intenso sem recorrer a comportamentos autodestrutivos. Em vez de tentar "fugir" da dor, a pessoa aprende a atravessá-la de forma mais segura.
Regulação emocional. Auxilia na identificação e modulação das emoções, reduzindo sua intensidade e aumentando a resiliência diante de situações estressantes.
Habilidades interpessoais.Como muitas pessoas em risco de suicídio enfrentam dificuldades em relacionamentos, a DBT ensina comunicação eficaz e construção de vínculos saudáveis, diminuindo a sensação de desesperança e isolamento.
A DBT é oferecida em diferentes formatos: psicoterapia individual semanal, treino de habilidades em grupo, coaching telefônico para momentos de crise e supervisão para os terapeutas . Esse suporte constante e estruturado é um dos diferenciais da abordagem, especialmente para pessoas que precisam de um "colo" terapêutico nos momentos mais difíceis.
O que a ciência ainda não sabe sobre o tratamento do comportamento suicida
Apesar dos avanços, há lacunas importantes no conhecimento científico sobre o comportamento suicida. A maioria dos estudos foi feita com populações de países ocidentais, e não se sabe se os mesmos resultados se aplicam a pessoas de outras culturas ou contextos socioeconômicos.
Além disso, embora a DBT tenha se mostrado eficaz para muitas pessoas, não é uma solução única. Cerca de uma em cada três pessoas pode não ter o benefício esperado com essa abordagem, e os mecanismos exatos pelos quais a DBT reduz o comportamento suicida ainda não são completamente compreendidos.
Os pesquisadores também não sabem ao certo por que algumas pessoas com os mesmos fatores de risco desenvolvem ideação suicida e outras não, nem por que algumas melhoram com o tratamento e outras não.
É fundamental que familiares e amigos saibam reconhecer os sinais de alerta. Entre eles, o Ministério da Saúde destaca: isolamento social, falas como "vou desaparecer" ou "queria nunca mais acordar", falta de esperança em relação ao futuro e mudanças bruscas de comportamento . A presença desses sinais não significa que a pessoa necessariamente vai tentar o suicídio, mas indica que algo não vai bem e que ajuda profissional pode ser necessária .
Perguntas Frequentes
Falar sobre suicídio com alguém que está sofrendo pode incentivar a pessoa a tentar? Não, essa é uma das maiores crenças populares equivocadas. A ciência mostra que falar de forma aberta, sem julgamento e com acolhimento não aumenta o risco, mas sim reduz, porque permite que a pessoa se sinta compreendida e busque ajuda. O silêncio e o isolamento são mais perigosos.
Quem pensa em suicídio tem necessariamente um transtorno mental? A grande maioria das pessoas com comportamento suicida tem algum transtorno mental diagnosticável, especialmente depressão, transtorno bipolar ou transtorno de personalidade borderline. No entanto, o sofrimento intenso pode ocorrer em outras situações, e o tratamento adequado da condição de base é fundamental para a prevenção.
A Terapia Comportamental Dialética é a única abordagem eficaz? Não. A DBT é uma das abordagens com mais evidências para comportamento suicida, especialmente em pessoas com desregulação emocional intensa, mas não é a única. Terapias cognitivo-comportamentais, terapia do esquema e outras abordagens também têm evidências. O mais importante é que a pessoa receba um tratamento baseado em ciência e adequado às suas necessidades individuais.
Medicamentos ajudam a prevenir o suicídio? Em muitos casos, sim. Antidepressivos, estabilizadores de humor e outros medicamentos podem reduzir os sintomas de transtornos mentais que aumentam o risco de suicídio. No entanto, o tratamento deve ser sempre individualizado e acompanhado por um psiquiatra, e a medicação não substitui a psicoterapia. É fundamental conversar com o médico sobre qualquer efeito colateral ou piora dos sintomas.
O que fazer se alguém próximo apresenta sinais de alerta? Procure um momento calmo para conversar, ouça sem julgamento, incentive a pessoa a buscar ajuda profissional e ofereça-se para acompanhá-la. Se houver perigo imediato, não a deixe sozinha e entre em contato com serviços de emergência, como o SAMU (192) ou o CVV, pelo telefone 188. O acolhimento e a presença são fundamentais.
O sofrimento que leva ao suicídio tem sempre uma causa externa óbvia? Não necessariamente. Embora fatores externos, como perdas, problemas financeiros ou conflitos, possam contribuir, o sofrimento que leva ao suicídio é frequentemente interno e está ligado a uma percepção de desesperança e falta de saída. É por isso que o tratamento da saúde mental é tão importante.
Conclusão
Não precisamos esperar setembro chegar para falar sobre suicídio. A cada dia, pessoas em sofrimento precisam saber que não estão sozinhas e que há tratamento eficaz disponível. A ciência mostra que abordagens como a Terapia Comportamental Dialética salvam vidas ao ensinar habilidades para lidar com emoções intensas, reduzir impulsos autodestrutivos e construir uma vida que vale a pena ser vivida.
Se você está passando por um momento difícil, saiba que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas de coragem. Se você conhece alguém que pode estar sofrendo, sua escuta acolhedora e seu incentivo para buscar apoio profissional podem fazer toda a diferença. O cuidado com a saúde mental é um compromisso de todos os dias do ano.
O silêncio não protege ninguém. A informação, o diálogo e o tratamento, sim.
Conteúdo produzido com finalidade educativa por Aline Gomes Psicóloga CRP: 06/190242.









